Há um espaço entre a morte e o renascimento onde nada existe. Não é o abismo, pois até o abismo sussurra. Não é o esquecimento, porque esquecer é um ato, e o ato exige um sujeito. É o nada puro, a ausência de forma, vontade ou voz. Você habita esse lugar sem estar nele, como um eco de algo que foi destruído antes mesmo de se definir. Aqui, o tempo se dissolve e o significado se desmancha, como tinta em água. Você não tem direção, não tem peso. Apenas está—ou não está.
Os mortos têm sua paz, os vivos têm suas lutas. Mas o que sou eu, agora que já morri e ainda não nasci? Um esqueleto sem ossos, um nome sem boca para pronunciá-lo, um grão de areia que nunca tocou a praia. As sombras do que fui me chamam de volta, mas sou cega para suas formas. O que serei ainda não me vê, porque ainda não tem olhos. Sou a ruína de uma história que ninguém terminou de escrever, uma promessa quebrada antes de ser feita. Sou um eco de uma prece esquecida, uma voz que se perdeu no vento antes que alguém pudesse escutá-la.
Ando por entre os dias como um véu suspenso no vento, sem corpo, sem peso. O passado tenta se impor, como um carrasco que ergue o machado uma segunda vez, mas a lâmina atravessa o vazio onde um coração costumava bater. O futuro sonda, hesitante, sem coragem de reivindicar o que ainda não pertence a ninguém. Cada passo que dou não me leva a lugar algum, cada fôlego que tomo é um eco sem dono. Não sou fantasma, pois nem lamento deixei para trás. Não sou sombra, pois nada há para projetar minha existência. Sou o intervalo entre uma palavra e outra, o silêncio sufocante entre dois batimentos cardíacos.
Há momentos em que a ideia de um novo eu me parece uma miragem distante. Mas e se esse novo eu nunca chegar? Se este vazio for meu único destino? Talvez este nada seja minha forma final, uma existência sem âncora, sem limites, sem dor, mas também sem propósito. Tento buscar sinais, mas eles não vêm. Tento criar raízes, mas a terra me rejeita. Tento encontrar consolo na espera, mas o tempo não é gentil com aqueles que não pertencem a lugar algum.
O vazio tem sua própria melodia, uma nota contínua e interminável. Há noites em que juro ouvir vozes sussurrando, como se o universo estivesse me tentando com promessas vazias. “Volte”, elas dizem, mas não há para onde voltar. “Avance”, mas não há caminho. Tudo se dissolve antes que eu possa agarrar. O tempo, esse artesão cruel, me molda sem que eu perceba, talhando cicatrizes invisíveis no que resta de mim. Será que, no fim, sou apenas um reflexo distorcido do que fui? Um pensamento esquecido na borda da consciência de alguém?
E nesse intervalo invisível, o tempo se curva sobre si mesmo, um ciclo sem começo ou fim. Não há dor, mas também não há alívio. Não há medo, mas também não há desejo. Apenas um silêncio esmagador, uma longa pausa entre um destino e outro. O universo não me nota, e o que sou agora talvez nunca se torne nada além disso. A única certeza é que não sou mais quem fui—mas ainda não sei quem serei. E se esse vazio for tudo o que restou de mim? Se essa ausência for minha única verdade? Talvez eu não esteja esperando renascer. Talvez eu seja feita apenas desse espaço entre um sopro e outro. Mas talvez, em algum canto esquecido deste vazio, ainda exista uma faísca esperando para incendiar algo novo. E desse fogo, surge um novo eu, que agora não teme mais a morte, porque já morreu.








