Às vezes, eu queria um botão. Um botão sórdido, pequeno, antigo, como os de uma máquina de escrever em ruína. Um botão escondido atrás da nuca, talvez — pressionável com um suspiro. Que ao toque, dissolvesse a avalanche.

Porque, sinceramente, tem dias em que estar viva é sentir demais. E eu já não sei se isso é dom ou maldição.
Tudo me atravessa como se a pele tivesse sido arrancada, centímetro por centímetro, e agora o mundo me toca com unhas sujas, vozes estridentes, ausências pesadas demais.

Me disseram que sentir é viver. Mentiram.
Sentir, às vezes, é morrer em mil versões pequenas, repetidas, invisíveis para o resto do mundo.

Queria sentir menos. Me importar menos. Queria não olhar o copo sujo na pia como se fosse a metáfora de toda a minha incapacidade. Queria não interpretar o silêncio como desprezo, o atraso como abandono, o descaso como sentença.
Queria não criar novelas épicas dentro da minha cabeça por causa de uma vírgula mal colocada numa mensagem.

Queria, com uma fúria serena, ser feita de pedra só por uns dias. Só pra descansar.
Só pra não chorar por coisas que ninguém mais vê. Só pra não pensar sobre tudo o que poderia dar errado antes mesmo de sair da cama.

Eu invejo quem flutua. Quem esquece. Quem solta.
E eu? Eu seguro. Tudo. Sempre. Até o que não é meu.
Minha cabeça é um campo minado, e cada pensamento é um fio exposto. Meus sentimentos vêm sem filtro, sem freio, sem convite.
E quando vêm, tomam conta. Escrevem cartas, falam por mim, tomam meu corpo de refém.

Queria conseguir ser indiferente. Uma criatura desdenhosa e elegante que não se afeta com nada, que cruza os braços diante do caos e diz, com um leve bocejo: “isso não me diz respeito.”

Mas não. Eu me desfaço.
Me dissolvo.
Me mastigo por dentro.

E há uma raiva nisso tudo — uma raiva suave, melancólica, daquelas que andam de mãos dadas com o cansaço.
Raiva de ainda me importar. De ainda esperar. De ainda acreditar que poderia ser diferente, melhor, menos… tudo.

Talvez um dia eu consiga. Talvez um dia eu desaprenda a hipersentir. Talvez um dia eu desative esse alarme interno que grita perigo onde só há vento.

Mas hoje, confesso: eu só queria um botão.
Um botão simples, vermelho, sem cerimônia.
Pra desligar um pouco.
Pra silenciar esse inferno delicado que é sentir demais.

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