Em noites soturnas, as palavras me aprisionam, ressoando em um eco sem fim dentro de mim. Elas flutuam, espectros ao meu redor, tecendo uma atmosfera densa que sela meu mundo contra a luz da claridade. Proferidas, transformam-se em sombras que me assombram, turvando meu céu com um véu de melancolia que impede os raios de sol de tocar minha alma. Mas ao serem escritas, essas palavras se dissipam, como se por magia eu as libertasse, empunhando a pena como varinha e o papel como caldeirão.
Escrever é meu poder — purificar, arrumar, aliviar a carga das sombras que me atormentam. Prendo as palavras, faço delas minhas cativas em páginas que são minhas masmorras. Por vezes, elas me escapam, serpenteando de volta à liberdade, mas sempre as recapturo com tinta e papel. Há momentos em que desejo aprisionar a felicidade, ancorá-la para sempre nas linhas escritas, para que eu possa revisitá-la e sorrir. Outras vezes, é a tristeza que desejo exilar em uma torre de papel, longe, para que eu possa respirar segura outra vez.
E talvez, ao revisitá-las, eu perceba que não há mais o que temer, que as palavras já se desfizeram em pó. No entanto, tropeço nelas novamente e percebo que, mesmo distantes, ainda ferem, talvez imortais, espectros condenados a me perseguir até os confins de minha existência. Escapam, vez ou outra, e me fazem tombar novamente.
É como se a história se reescrevesse, incessante, cada repetição mais dolorosa, mostrando-me que minha magia, por vezes, não é suficiente contra os demônios que enfrento, que sou vulnerável a certos flagelos que sempre retornam, espreitando, aguardando a chance de me derrubar mais uma vez.
Em alguns episódios, o dragão é morto; em outros, é um combate perpétuo que só terminará quando ambos sucumbirmos. Pois como dois lados de uma mesma moeda, um é a fraqueza do outro.

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