Quando tudo morre por dentro,
a raiva fica.
Ela não pede licença.
Não consola.
Não promete cura.
Ela apenas arde.
Depois que o amor apodrece,
que a esperança vira poeira
e a tristeza se cansa de doer,
é a raiva que continua respirando —
ofegante, quente, indomável.
A raiva como último sentimento vivo não é nobre.
Nunca foi.
Mas é honesta.
Ela não romantiza a dor.
Não chama injustiça de aprendizado.
Não aceita o silêncio como resposta.
A raiva aponta o dedo e diz:
isso não deveria ter sido assim.
E talvez não devesse mesmo.
Quando o vazio existencial se instala
e o mundo perde a cor,
a raiva vira um fogo aceso no escuro.
Não ilumina o caminho,
mas impede o congelamento total.
Ela é o último músculo que responde.
O último nervo que grita.
A evidência incômoda de que algo,
em algum lugar,
ainda se recusa a morrer.
Por isso o ódio vira combustível.
Não por ser belo,
mas por ser funcional.
A raiva move corpos cansados.
Sustenta quem já teria desistido.
Empurra decisões que a esperança nunca conseguiu tomar.
Muitos dizem que é preciso eliminá-la.
Curar.
Perdoar.
Silenciar.
Mas ninguém atravessa o nada
sem queimar alguma coisa antes.
A raiva não é o fim.
É o resto.
O que sobra quando tudo falha.
E às vezes, sobreviver não começa com amor —
mas com um incêndio pequeno,
teimoso,
se recusando a apagar dentro do peito.







