Houve um dia — não marcado no calendário,
não anunciado por presságios —
em que simplesmente cansei de estender a mão.
Não foi coragem.
Coragem ainda espera recompensa.
Foi cansaço puro, desses que não gritam,
apenas sentam no chão e ficam.
Parei de querer ser salva
quando percebi que toda esperança
vinha com uma condição invisível:
acreditar que alguém chegaria inteiro
num mundo que só sabe chegar quebrado.
A libertação não veio como luz.
Veio como um quarto sem janelas
onde, pela primeira vez,
ninguém prometia amanhecer.
E foi ali —
nesse espaço sem promessas —
que algo em mim descansou.
Desistir da esperança
não foi desistir de viver.
Foi parar de negociar minha existência
com futuros imaginários
e salvadores que nunca aprenderam a ficar.
Não houve redenção.
Houve silêncio.
E no silêncio, uma verdade modesta:
eu não precisava ser resgatada
para continuar respirando.
Desde então, sigo sem pedir milagres.
Caminho sem mapas emocionais.
Não espero mãos estendidas —
aprendi a andar com o peso inteiro do corpo.
Talvez isso não seja liberdade,
no sentido bonito da palavra.
Mas é honestidade.
E, curiosamente,
ela dói menos
do que esperar.








