Dizem que perdemos coisas ao longo da vida.
Mas eu aprendi — a duras perdas, veja bem — que nunca se perde o que nunca se teve.
Porque nada é nosso. Nada nos pertence.
Tudo nos é emprestado com data de devolução invisível.
Mas…
o problema não está na posse real,
está na ilusão.
É quando achamos que temos que começamos a temer perder.
A ilusão da posse é um vício sutil,
e o medo é seu parasita fiel.
Acreditamos possuir um amor — e o medo de perdê-lo nos prende mais que o amor em si.
Achamos que este corpo é nosso — e nos contorcemos tentando atrasar o relógio da carne.
Nos afeiçoamos a nomes, lugares, pessoas, como se fossem âncoras —
mas são brumas. E ainda assim choramos quando o vento as leva.
É cruel, eu sei.
Mas também é libertador.
Porque se tudo que temos é ilusão,
então tudo que nos ameaça também é sombra.
E nessa dança entre o que nunca foi nosso e o que já não é mais,
talvez reste apenas isso:
a consciência lúcida de que não viemos para ter,
mas para sentir,
para tocar,
para perder — e ainda assim continuar.
Talvez a alma não precise de posses.
Só de experiências, e de cicatrizes bem contadas.








