Eu caminho. Às vezes por dentro. Às vezes tão para fora de mim que me perco no contorno das árvores ou no balançar das sombras. Não sei onde estou. Mas também não estou perdida.
Não mais.

Existe algo estranho e sagrado nesse estado de errância — como se o mundo deixasse de exigir respostas e passasse apenas a escutar. A estrada me aceita como sou: desfeita, incompleta, sempre em transição. E eu a aceito também, com seus silêncios longos e suas curvas que não prometem nada.

Eu não busco chegada.
Busco o gesto de seguir.

Houve um tempo em que precisei de sentido. Um tempo em que estendi a alma na direção de mãos que tremiam promessas — e voltei com os dedos cheios de vazio. Já acreditei que se eu parasse, talvez tudo se encaixasse. Que o amor bastaria. Que a paz viria. Que eu seria encontrada.

Mas agora sei: não há centro a alcançar. Não há retorno. Não há quem me encontre porque não sou algo perdido — sou algo em constante desfazer.

O que sou, sou enquanto ando.

As pessoas olham com pena. Dizem: “ela se perdeu”. Mas como podem saber, se nunca se permitiram sair da rota? Eu as escuto com um sorriso pálido, quase ausente, como quem observa uma lembrança antiga passando devagar pela janela de um trem. Elas acham que o caminho é feito de pontos de chegada. Eu aprendi que o caminho é o próprio respirar entre uma ausência e outra.

Meus passos não gritam mais por direção. Eles deslizam.
Meu coração não exige respostas — pulsa suave, como quem já entendeu que algumas perguntas são eternas.
E meu corpo, esse templo de cicatrizes silenciosas, dança com a brisa como quem finalmente cansou de lutar contra o que não entende.

Não estou perdida.
Estou no intervalo.
Na fenda.
Na pausa entre dois sopros.

E talvez, só talvez, seja aqui que sempre morei — nesse espaço onde tudo é incerto, mas nada é mentira.
Nesse ponto onde a dor se transforma em poesia.
Onde o não saber é, por si só, uma forma de existir.

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