Às vezes me perguntam o que tenho a perder.
Sorrio. Não por ironia — embora eu a cultive como flor de veneno —,
mas porque a pergunta presume um engano primordial:
que possuímos alguma coisa neste mundo.
Eis a falácia doce: a ideia de que algo é nosso.
O corpo? Um casulo por tempo limitado.
Os amores? Visitantes. Uns passam, outros ardem, mas todos vão.
Os lugares? Albergues da alma nômade.
Até o nome — esse que carrego como espada e cicatriz — me foi dado, e um dia deixará de ecoar.
Não, eu não tenho nada a perder.
Porque nunca tive. Nunca tive, e nunca terei.
Tudo que me atravessa, atravessa. Tudo que me toca, parte.
Sou feita de passagens, não de posses.
O que chamam de perda, eu chamo de devolução.
E o que chamam de ter, eu desconfio.
O apego é uma ilusão bem treinada, um truque de mágica emocional.
Mas quando olho com os olhos certos — os que aprenderam com a dor e o tempo —,
vejo: tudo é emprestado. Até mesmo a chama que me mantém viva.
Até mesmo este coração que já se estilhaçou tantas vezes que aprendeu a pulsar por conta própria.
E se nada é meu — nem corpo, nem memória, nem glória —
então a liberdade é absoluta.
Porque quem nada tem, nada deve.
E quem nada possui, é possuído apenas por si.








