Talvez meu maior medo não seja falhar.
O fracasso ainda oferece alguma forma de contorno, um motivo, uma narrativa.
Meu medo é mais difuso, mais íntimo —
é o de nunca ser suficiente.

Não como filha, onde o amor parece sempre chegar atrasado ou na medida errada.
Não como amiga, onde a presença nunca compensa totalmente as ausências.
Não como neta, sobrinha, nem como esse corpo que ocupa um lugar na árvore genealógica sem saber exatamente por quê.
Não como profissional, onde cada conquista já nasce cansada, insuficiente antes mesmo de ser celebrada.
No fim, todos esses nomes apontam para a mesma falha essencial:
não ser suficiente como pessoa.

Existe uma sensação persistente de inadequação, como se eu tivesse sido lançada ao mundo sem o manual básico de existência.
Observo os outros desempenhando seus papéis com uma naturalidade que me parece ensaiada há séculos,
enquanto eu improviso, sempre à beira do erro, sempre aquém.
Mesmo quando faço o que é esperado, algo permanece oco —
como se cumprir expectativas não fosse o mesmo que justificar a própria existência.

Às vezes penso que o problema não é o que faço, mas o simples fato de ser.
Como se existir exigisse uma legitimidade que nunca me foi concedida.
Carrego relações, títulos, afetos e funções, mas todos eles parecem frágeis demais para sustentar a pergunta que insiste:
por que eu, afinal?

Ainda assim, continuo.
Não por esperança, mas por inércia, por hábito, talvez por uma recusa silenciosa ao desaparecimento.
Vivo nesse intervalo entre o desejo de ser necessária e a suspeita amarga de que o mundo seguiria intacto sem mim.
E talvez seja isso a melancolia:
não a tristeza explícita, mas a consciência constante de que, mesmo estando aqui,
algo em mim permanece irremediavelmente fora de lugar.

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