Uma figura pequena segura uma tocha, criando uma iluminação quente na base de uma árvore imensa e antiga. A árvore tem raízes expostas e trepadeiras. Ao fundo, uma vasta paisagem de pântanos e montanhas rochosas e nevadas se ergue sob um céu nublado e tempestuoso.

Ela partiu. Simples assim. Apagou os próprios rastros e deixou tudo para trás. As coisas, as pessoas, o ar que respirávamos juntas.

Eu, no entanto, não pude partir. Não se abandona um lugar quando as fundações dele estão em você. Lares não são feitos de paredes, mas de tempo e de rotinas compartilhadas, uma arquitetura de alma que não se desmonta. Eu não tinha para onde voltar, porque já estava em casa. E como se vai embora de si mesmo?

Então, fiquei. E fui forçada a conviver com a presença esmagadora da ausência dela. Não é um vazio, como dizem. É uma substância. É o lado frio da cama, o silêncio que responde às minhas perguntas mudas, o peso no peito que me lembra de respirar. É a matéria de tudo que não existe mais, e essa matéria é pesada.

Meu sorriso se tornou um espasmo, um hábito muscular que não alcança os olhos. É um reflexo da confusão de continuar existindo sem saber como. Nele estão os amanhãs que rasgamos, a raiva que corrói sem encontrar alvo, a vergonha por cada erro. E o arrependimento… esse é o fantasma que nunca dorme.

Eu vivo em dois lugares ao mesmo tempo: no passado, que é um museu de assombrações, e no futuro, que é um precipício. O presente é insuportável demais para ser encarado de frente, a não ser que algo anestesie a mente. Viver é insuportável demais.

Quase. Há sempre um “quase” que me impede de dar o último passo. Talvez seja covardia, o medo primitivo do fim. Ou talvez, e essa é a ideia mais dolorosa, alguma fibra esquecida de mim ainda insista em se importar, mesmo sem saber exatamente com o quê.

Às vezes, na quietude da noite, a pergunta retorna: se eu pudesse voltar, eu faria algo diferente? Eu seria diferente?

Não, não acredito que seria. Para o bem ou para o mal. Cada escolha, cada ferida, cada passo que me conduziu a este deserto foi meu. E, no fim, talvez a única coisa que realmente se possui é o caminho que nos destruiu.

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