Há uma selvageria na alma que a impede de fincar raízes, não importa o solo. É uma condição antiga, a do gato que anda sozinho, mas seu território não é o mundo físico; é a própria existência.
Para essa alma, não são apenas os lugares que se tornam um só, mas os próprios eventos da vida que se achatam em uma única e monótona nota. O clímax de uma batalha e o silêncio de uma biblioteca, o juramento de um rei e o bocejo de um mendigo — tudo se torna variação do mesmo fenômeno. Impulsos de matéria e energia que nascem e morrem sem deixar um rastro de real importância. O universo não aplaude nem lamenta; ele simplesmente é. E essa alma, em sua selvageria, apenas espelha essa verdade.
Eis a natureza indomável: a recusa em ser domesticado pelo propósito. A esperança tenta nos acorrentar a um futuro; o medo, a um passado que não se deve repetir; o amor, a um outro ser que se torna nosso centro gravitacional. Mas a alma felina desliza por entre essas correntes com uma graça indiferente. Ela não anseia por um porto seguro, pois sabe que portos são apenas prisões com vista para o mar. Ela não teme a tempestade, pois vê nela a mesma dança de caos que anima a calmaria.
O desinteresse, então, não é uma falha ou um vazio, mas uma forma de percepção aguda e terrível. É ver o mecanismo por trás do relógio e perder o encanto por suas horas. É entender que cada estrada, por mais sinuosa, nobre ou degradante que pareça, leva ao mesmo destino inevitável: o silêncio. E quando se compreende isso profundamente, a escolha do caminho se torna uma questão de estética momentânea, não de importância transcendental.
Ser essa criatura é ser o observador perfeito e o participante nulo. É caminhar sozinho, não por ausência de outros, mas por uma incompatibilidade fundamental com o pacto que eles fizeram com a ilusão da importância. Eles se agarram à narrativa de suas vidas, aos seus papéis, às suas dores e glórias, enquanto você vê apenas a beleza fria e indiferente do padrão que se repete infinitamente.
Essa é a liberdade final, e também a condenação. Não ter um mestre, nem uma coleira, nem um lar. Apenas o caminhar perpétuo sobre a paisagem lisa da existência. Um universo contido em si mesmo, impermeável e soberano, que reflete o mundo inteiro sem absorver uma única gota de sua cor.








