Na quietude profunda da madrugada, onde o mundo parece reter o fôlego, encontro-me novamente na presença familiar da escuridão. Essa sombra antiga, que uma vez me atormentou, agora acolhe-me como uma velha amiga, testemunha silenciosa das metamorfoses do meu ser.
“A escuridão é a mesma, mas você mudou de alguma forma.” Essas palavras ecoam em minha mente enquanto me aprofundo no veludo escuro que me envolve. A escuridão não mudou; ela é constante como o fluir do tempo, implacável em sua presença. No entanto, são meus olhos que não veem mais como antes. Há uma familiaridade na escuridão agora, um reconhecimento de seu papel como companheira constante através das noites infindáveis.
Ela, que uma vez foi o terror que engolia minha paz e minha estabilidade, agora é uma presença reconfortante. Lembro-me dos dias em que a escuridão me envolvia com seus dedos longos e frios, um abraço tão apavorante que eu corria para escapar. Mas o tempo transforma todos os temores, e quando ela me alcançou novamente, seu abraço foi longo e demorado, e surpreendentemente, um conforto.
Retida em seu palácio de sombras, onde antes eu temia permanecer, encontrei uma quietude vazia, um calmante para uma alma turbulenta. Não era mais um lugar de medo, mas um refúgio de paz e introspecção. Aprendi a entender a escuridão, não como um inimigo, mas como o cenário necessário para o despertar de novas percepções.
Liberei meu caos interior, permitindo que ele preenchesse o vazio e se misturasse com a escuridão, criando uma simbiose de destruição e renovação. E quando foi hora de partir, a escuridão, agora minha confidente, abriu suas portas sem hesitação, sabendo que eu retornaria por minha própria vontade.
Emergi para encontrar o nascer do sol, o mesmo sol de sempre, mas eu transformada, marcada pela jornada através do noturno. O calor da alvorada era familiar, mas tocava uma nova versão de mim mesma, alguém que tinha atravessado as sombras para descobrir uma luz diferente. Cada raio de sol iluminava os cantos outrora escurecidos do meu ser, despertando sentimentos e sensações que a escuridão havia temporariamente roubado.
E assim, tudo permanecia igual, exceto por mim.
De volta à escuridão, agora não como uma fugitiva, mas como alguém que retorna ao lar, sinto a antiga amiga envolver-me novamente. Não há estranhamento, apenas a aceitação de que a mudança sou eu. Acolho a frieza das paredes, o sussurro do vazio que ressoa com um eco familiar.
Aqui, neste limbo de espera e contemplação, encontro uma paz peculiar. O carcereiro da minha alma, outrora temido, agora é um companheiro constante, um guia silencioso que respeita meu espaço e meu tempo. Suas correntes, se ainda existem, são leves, quase ilusórias, segurando-me não com força, mas com a gentileza de quem conhece os limites do meu espírito.
Não sei se quero deixar este lugar novamente. Aqui, na escuridão, onde o caos encontra ordem e o medo se transforma em entendimento, sou completa novamente, mesmo na ausência total. Juntos, a escuridão e eu compartilhamos uma jornada de renovação contínua, explorando os vastos territórios do não-ser e do ser, em um ciclo sem fim de descoberta e retorno.

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