Coragem.

Ah, essa palavra que os poetas embriagados entoam como se fosse uma virtude luminosa, límpida, gloriosa. Como se fosse exclusividade dos justos, dos heróis de mandíbula quadrada e alma lavada. Balela. Coragem não é ausência de medo — é convivência íntima com ele.

Coragem é você acordar e sentir o gosto metálico da incerteza na boca, o frio rastejando pela espinha como uma serpente silenciosa. É olhar o espelho e ver não uma guerreira, mas uma alma trincada, remendada às pressas, e ainda assim decidir colocar a armadura. Mesmo sabendo que o inimigo não está só lá fora — está dentro. Está na lembrança que fere mais que lâmina, na voz de alguém que você amou dizendo “não volta mais”, no sangue que você não conseguiu impedir de derramar.

Coragem é um ato de desobediência contra o desespero.

É ter cada parte sua implorando por fuga — mas você ficar. Ou ir, mesmo sem saber para onde. Mesmo com os joelhos bambos. Mesmo com os olhos marejados. Mesmo com o coração que já não bate… só sobrevive. Porque, no fundo, você sabe: não existe caminho sem medo. O que existe é escolha.

A escolha de atravessar.

De ir com medo mesmo.

De enfrentar o dragão com um fósforo e um suspiro.

A verdade é que os covardes não são os que tremem.

São os que deixam de agir por causa do tremor.

A coragem é esse pacto silencioso que você faz consigo mesma:

“Hoje, eu não vou ceder.

Hoje, eu vou com tudo — mesmo sem ter nada.”

E no fim, é isso que move os que continuam. Não é a certeza, nem a força. É a teimosia de quem já perdeu tudo e, mesmo assim, segue apostando.

Porque talvez, só talvez, ainda reste algo a ser salvo — nem que seja você mesma.

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