Eu te amei sem querer nada em troca. Te dei o nome de Murphy, por causa do meu filme favorito. Lá o Cooper explica para a Murphy que seu nome não significa que algo ruim vai acontecer, e sim que o que pode acontecer, vai acontecer. Essa lei pode soar pessimista. Mas todas as coisas na minha vida que deram certo foram porque algo havia dado terrivelmente errado antes. Inclusive você.
Você quase foi atropelado, estava perdido e sozinho (assim como eu quando saio na rua). E já no primeiro dia eu não pude suportar a ideia de você abandonado na rua, com frio, fome e com medo. Você era tão assustado e desconfiado. Acho que me identifiquei de alguma forma. E mesmo depois do amor (e da comida) você ainda não sabia ao certo se podia confiar em mim ou não. Só com o tempo você pode constatar por si mesmo que aquela casa era segura, e assim poder mostrar o seu verdadeiro potencial.
Dizem que os cachorros são os melhores amigos dos humanos, mas eu nunca tive certeza se acreditava mesmo nisso. Até aquele dia cinza. Você ainda era bem novo, e todo mundo sabe como são os cachorros novos. Você não parava quieto por um segundo, sempre correndo, mordendo e não me dando sequer um segundo de paz. Mas naquele dia cinza você percebeu que alguma coisa estava errada. Não deve ter entendido direito. Mas sabia que naquele dia eu estava quebrada, sem forças para correr atrás de você, gritar porque você quebrou alguma coisa ou te deixar de castigo por ter rasgado o sofá.
Naquele único dia você sentiu que, pela primeira vez, eu não conseguia cuidar de você. Então você decidiu que cuidaria de mim. Você não sabia exatamente o que fazer então fez o que era mais difícil pra você. Alguns dizem que o amor é sacrifício, talvez seja verdade. Nesse dia você deitou do meu lado e ficou assim quietinho o dia inteiro. As vezes algumas lágrimas caiam e você se aproximava mais quase como que perguntasse se havia mais alguma coisa que pudesse fazer.
Lembro muito bem que você não deixou o meu lado por nada, nem pra comer (sua atividade favorita no mundo todo) ou para destruir a casa como de costume. Você não sairia do meu lado até que eu tivesse forças para levantar e seguir em frente, até que tivesse certeza de que eu estivesse bem. Quando algo chamava a sua atenção tudo que fazia era levantar as orelhas, mas depois você olhava pra mim e decidia que nada era mais importante.
Naquele dia você não chorou como de costume, ou implorou por atenção (ah, como você é carente). Nem mesmo tentou morder as tentadoras pontas dos cobertores. Tenho que admitir que por alguns momentos fiquei preocupada com você. Tão novo, talvez estivesse doente, talvez precisasse de algo. Talvez eu tivesse falhado com você também, assim como falho em todas as outras coisas. Era bem provável. Talvez eu tivesse te quebrado de alguma forma. Me senti culpada.
Mas no dia seguinte, e no outro, e no outro e em todos os dias desde então você voltou ao Murphy de sempre. Correndo, mordendo, destruindo propriedades e acabando com a minha paciência. Foi então que eu entendi que você fez o que podia para me fazer sentir melhor. E em vez de tentar brincar e me animar apenas me acompanhou na minha melancolia. E isso era tudo que eu precisava. De algum jeito você tinha essa bela sabedoria guardada em você, lá dentro, pronta para ser usada.
Você me disse do seu próprio jeito, que o amor é a forma mais eficiente de cura. Não só me disse, me provou. Provou que, quando a gente joga o amor pelo mundo, ele acaba voltando pra você quando você menos espera. Como uma forma de dizer que sempre vale a pena amar e fazer o certo, mesmo sem nada em troca, porque é disso que o mundo precisa. Não de gente querendo saber o que há de errado, ou tentando fazer algo sobre isso, apenas entendendo que, ás vezes, tudo que a gente precisa é de tempo pra se consertar e de um pouco amor para colar os pedacinhos com linhas douradas. Para quando você olhar para as suas rachaduras ver que apesar de tudo que podia ocorrer mal ter ocorrido, no pior momento possível, assim como diz a Lei de Murphy, isso fez com que algo bonito também fosse criado. E todas as vezes que eu sentir os machucados vou lembrar também que naquele dia eu descobri que você realmente era meu melhor amigo e que iria me amar pra sempre.
“Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas fazem você se sentir extraordinário?” Você me fez sentir assim. Mesmo eu sabendo que eu não sou nenhuma dessas coisas, ver a sua alegria ao me ver faz eu me sentir dessa forma. E talvez o amor seja isso, fazer as pessoas que você ama acreditarem que você é especial, pelo menos pra ela. E você entender então, que é isso que importa. Porque ela também é especial, algo raro e extraordinário pelo menos pra você.








