Certa tarde, quando o céu parecia preso em eterno cinza, a menina — já mais crescida — saiu para caminhar sem rumo.
Era um desses dias em que o corpo anda, mas a alma fica sentada num canto qualquer, pensando em desistir de tudo.
Foi quando o vento mudou.
Ele não vinha como brisa. Nem como tempestade.
Era um vento curioso, que parecia procurar alguém.
E encontrou.
A menina parou.
O ar cheirava a coisa antiga: infância molhada, páginas de livros esquecidos, terra molhada depois do riso.
E então ela apareceu:
uma mulher com cabelos que dançavam sem música,
olhos que pareciam saber mais do que deviam,
e uma cicatriz no canto da boca — não feia, mas feroz.
Ela chegou sem pressa, como se sempre estivesse vindo.
— “Você tem uma estrela escondida, não tem?” — perguntou, com um sorriso torto.
A menina congelou.
Ninguém falava sobre isso.
Era um segredo trancado com mil cadeados.
— “Ela ainda brilha. Mesmo sufocada. Eu também tinha uma.” — continuou a mulher, e, ao dizer isso, abriu a blusa no peito.
Lá dentro, um ponto de luz dançava.
Não brilhava como antes, mas não estava morto.
Estava… voltando.
— “Por que ela some?” — sussurrou a menina.
— “Ela nunca some.” — disse a mulher. — “Mas às vezes, quando tentamos caber em um mundo pequeno demais… ela dorme.”
— “E como eu acordo ela?” — a voz da menina saiu quebrada, mas inteira de desejo.
A mulher se aproximou, encostou a testa na dela e disse:
— “Você precisa reaprender a correr sem pedir desculpas.”







