A menina agora já não dançava.
Andava como quem mede o chão com os pés.
Cada passo uma equação.
Cada gesto, uma dúvida.
Ela aprendeu a ouvir primeiro, falar depois.
Ou nem falar.
Porque, muitas vezes, quando abria a boca, vinha aquela sensação:
de estar ocupando espaço demais.
Começou a observar o mundo de dentro de si mesma, como quem espia por trás de uma cortina.
E quanto mais se calava, mais os outros diziam:
— “Viu como está melhor assim?”
— “Agora ela aprendeu a se comportar.”
— “Está ficando mocinha.”
Ela sorriu, por fora.
Mas por dentro, sua estrela estava doente.
Ela ainda brilhava, mas com uma tosse fraca, um soluço de luz.
Para sobreviver, a menina construiu um esconderijo dentro do peito.
Feito de desculpas, medo e paredes grossas de “tudo bem”.
Ali, ela guardava tudo que era seu:
As palavras inventadas.
As vontades sem nome.
Os gritos que não podia dar.
Ficava horas ali dentro, quieta.
Esperando que o mundo a esquecesse.
Ou que, talvez um dia, ela mesma esquecesse quem era.
E por muito tempo, quase conseguiu.
Mas a estrela — teimosa — seguia pulsando.
Quieta, sim.
Mas viva.
Como se esperasse o momento certo.
Como se soubesse:
“Ela vai lembrar. Um dia, ela vai lembrar.”








