Uma guerreira de cabelos escuros e armadura azulada se ajoelha em dor, com flechas cravadas em suas costas. Ela se apoia no punho de sua espada dourada, enquanto uma lágrima escorre de seu rosto. Atrás dela, uma auréola dourada, semelhante a um sol de espinhos, destaca sua figura trágica.

O único lugar que já amei foi o lugar que deixei para trás. Dos tempos quando eu era uma criança e sonhava com todas as coisas que eu seria. Agora, tudo é selvagem e há rachaduras em minha história.

A primavera trouxe a ingenuidade que me guiou para o inevitável fim. Para onde eu poderia voltar agora que tudo que eu tinha foi queimado? Para onde foram todos os meus sonhos?

Depois do fim vem o florescer de traumas e emaranhados de arrependimentos, bênçãos de desespero e o peso dos amanhãs. Sobram os retalhos de dias passados, um pesadelo interrompido pelo amanhecer, a inquietação de uma tragédia culminante.

Em meio a um murmúrio de oração pelas almas roubadas, os sonhos cortados e o mundo colorido em sangue. Que eu permaneça inabalável no mundo que colapsa! O passado esquecido e irrefletido assombra as mentes com a sombra da morte. Não consigo me lembrar o que me trouxe até aqui, o que me guiou nesse caminho. E os raios de sol do amanhecer já não aquecem meu espírito. Assim, flanar por entre o caos se torna ínfimo.

Seria eu a filha desobediente e indócil? Pareço não conseguir achar a raiz de toda essa selvageria indômita. Uma profunda cólera para continuar lutando? Eu chamei por ajuda e não recebi. Eu sempre vi o mundo assim? Seria a vida esse conjunto de desesperos e desesperanças? De aflição e angústia? Exasperação e conflitos sem fim.

O chão frio parecia estranhamente reconfortante, como se envolvesse o meu corpo o devolvendo de onde ele veio. Do pó ao pó, dizem as escrituras. Havia uma dor pungente, cortante e fatal. Mas, estranhamente, esse sentimento atingiu uma intensidade maior do que meus sentidos e pensamentos podiam processar. Eu podia sentir cada parte do meu corpo se despedaçando, mas não conseguia me importar. Era como se ela, a dor, estivesse lá, e tudo que me restava era aceitar.

Um sentimento distante de serenidade veio cortante, não me lembrava da última vez que havia sentido isso. Todo o barulho e desordem ao redor pareciam abafados, como se eu não pudesse mais sentir meus sentidos. Como se eu estivesse deixando de existir. Uma serenidade tão plena, eu me sentia tão cansada, tão cansada… O frio era a única coisa que parecia se sobressair. Talvez se eu apenas fechasse os olhos, tudo se acalmaria.

Meus olhos estavam encobertos por um líquido espesso, provavelmente sangue, provavelmente meu. Mas isso não era mais importante. Uma calma excruciante se expandia dentro de mim. Se eu apenas fechasse meus olhos, tudo ficaria bem. Seria esse o meu fim? Uma gargalhada insana veio à tona. Por que eu estava rindo? Tudo parecia confuso e sem sentido. As risadas dementes e tresloucadas saiam sem permissão, junto com lágrimas inconcebíveis. O que estava acontecendo? Era realmente esse o meu fim?

Eram gargalhadas de alívio? Seria esse um ato de insanidade antes da partida final? Não, não penso que fossem. A morte era o fim de todas as coisas. Eu estava abraçando o nada eterno, o fim perpétuo. Não haveria mais dor, medo, culpa, sem dúvidas ou esperanças, o nada era o prêmio final. Tudo iria acabar, nada teria como dar errado ou certo. Se não há existência, não há ação, sentimento, pensamentos e pecados. Tudo estaria acabado. Sim, aquilo que eu sentia era alívio. O alívio de alguém que finalmente dispensou um fardo pesado demais.

Eu sentia tanta sede e frio. As risadas não conseguiam mais espaço. Não havia mais forças. E se eu fechasse os olhos só um pouquinho? Eu me sinto tão cansada. Só por um momento. Não é mais possível fazer nada, não há mais barulho ou loucura. Tudo que eu precisava fazer era fechar os olhos, só um pouco, só por um segundo.

Algo parecia me aconchegar no meio daquela terra banhada a sangue. O chão parecia tão quente e confortável. E se eu ficar apenas mais um pouco? Fechar os olhos parecia melhorar tudo. Assim eu fiz. Com um último sorriso, de loucura ou satisfação? Ninguém nunca saberia.

O início e o fim. Tudo transformado em nada. Não há mais tempo para morrer. Você queimou as pontes com um fogo que era meu para ser ateado. As faces do meu passado lentamente retornavam. Eu ainda tinha mais uma lição para aprender.


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As Crônicas de Valdorf

Adentre as terras de Versalha, um reino de beleza renascentista e podridão ancestral, onde o brilho das cortes esconde pactos sombrios. “As Crônicas de Valdorf” são os registros da queda de Genevieve, a heroína que as profecias nomearam salvadora e que a realidade transformou em ruína. Acompanhe, através de capítulos e fragmentos, a sua metamorfose: da glória ao vazio, do amor à vingança, da magia à mais pura e visceral fúria.…

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